A Interpretação dos Sonhos e as Neurociências
A Interpretação dos Sonhos e as Neurociências
Por Psicanálise Clinica Online · 12 de janeiro de 2023 · 3 min de leitura
Pouco depois da morte de Freud, o estudo do sonho a partir da perspectiva da neurociência teve início com seriedade. O primeiro grande avanço veio em 1953, quando Aserinsky e Kleitman descobriram um estado fisiológico que ocorre periodicamente (em ciclos de 90 minutos) durante o sono, e que ocupa aproximadamente 25% de nossas horas de sono. Este estado é caracterizado, entre outras coisas, pelo aumento da ativação cerebral, explosões do rápido movimento dos olhos (REM), aumento da respiração e do ritmo cardíaco, ingurgitamento genital e paralisia do movimento corporal. Consiste, em suma, em uma condição fisiológica paradoxal na qual se está simultaneamente altamente excitado e, ao mesmo tempo, adormecido profundamente. Não surpreendentemente, Aserinsky e Kleitman suspeitavam que este estado REM (como veio a ser conhecido) era a manifestação externa do estado de sonho subjetivo. Agora é comumente aceito que se alguém for despertado do sono REM e perguntado se esteve sonhando ou não, relatará que estava sonhando em até 95% de tais despertares. O sono não REM, ao contrário, produz relatórios de sonhos a uma taxa de apenas 5-10% de despertares.
Essas descobertas iniciais geraram grande excitação no campo neurocientífico: pela primeira vez parecia ter em seu alcance uma manifestação objetiva, física do sonho, o mais subjetivo de todos os estados mentais. Tudo o que restava a ser feito, parecia, era pôr a nu os mecanismos cerebrais que produziam este estado fisiológico; então teríamos descoberto nada menos do que como o cérebro produz sonhos. Como o estado REM pode ser demonstrado em quase todos os mamíferos, esta pesquisa também poderia ser realizada em espécies sub-humanas (o que tem importantes implicações metodológicas, pois os mecanismos cerebrais podem ser manipulados em experimentos com animais de maneiras que não podem ser feitas em pesquisas humanas).
Seguiu-se uma seqüência de estudos, em rápida sucessão, na qual diferentes partes do cérebro foram sistematicamente removidas (em gatos) a fim de isolar as estruturas precisas que produziam o sono REM. Nesta base, Jouvet pôde relatar em 1962 que o REM (e portanto o sonho) foi produzido por uma pequena região de células em uma parte do tronco cerebral conhecida como os "pons". Esta parte do sistema nervoso está situada em um nível ligeiramente acima da medula espinhal, perto da nuca. Os níveis mais altos do cérebro, como os próprios hemisférios cerebrais que preenchem a grande cavidade do crânio humano, não pareciam desempenhar qualquer papel de causa na geração do sonho. O sono REM ocorre com regularidade monótona, durante todo o sono, desde que as pons estejam intactas, mesmo que os grandes hemisférios cerebrais sejam completamente removidos.
A pesquisa neurocientífica sobre o mecanismo do sono REM continuou nessa linha, utilizando uma grande variedade de métodos e, em 1975, havia surgido um quadro detalhado da anatomia e da fisiologia do "sono sonhador". Este quadro, que está corporificado nos modelos de interação recíproca e ativação-síntese de McCarley e Hobson (1975, 1977), dominou o campo desde então: ou, pelo menos, como veremos, até muito recentemente. Estes modelos autoritários propunham que o sono e o sonho REM fossem literalmente 'ligados' por um pequeno grupo de células situadas nas profundezas das pons, que excretam um químico chamado 'acetilcolina'. Este químico ativa as partes mais elevadas do cérebro, que são assim induzidas a gerar imagens (sem sentido) conscientes. Estas imagens sem sentido nada mais são do que o cérebro superior fazendo "o melhor de um mau trabalho... dos sinais ruidosos enviados pelo tronco cerebral" (Hobson & McCarley, 1977, p1347). Após alguns minutos de atividade REM, a ativação colinérgica decorrente do tronco cerebral é neutralizada por outro grupo de células, também situadas nas pons, que excretam duas outras substâncias químicas: noradrenalina e serotonina. Estes produtos químicos 'desligam' a ativação colinérgica (e assim, de acordo com a teoria, a experiência consciente do sonho).
Atenciosamente, Equipe PCO.